Sidebar

24
Seg, Jun

Fonte
  • Smaller Small Medium Big Bigger
  • Default Helvetica Segoe Georgia Times

 O Encontro Internacional de Solidariedade à Bolívia, realizado de 23 a 25 de outubro, em Santa Cruz de La Sierra, reuniu mais de mil lideranças dos movimentos sociais, provenientes de 18 países da América Latina e da Europa. Foi coroado por um emocionante encontro com Evo Morales num estádio de futebol da cidade de Monteiro, do qual participaram 30 mil pessoas, em sua maioria indígenas que sustentam o processo de mudanças em curso no país andino.
O Brasil foi representado pela CTB (Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil) e o MST (Movimento dos Sem Terra). Coube ao presidente do Sinpro-MG e também dirigente da CTB, Gilson Reis, a honra de ler um trecho do documento aprovado no encontro, intitulado “Em solidariedade à Bolívia e à Evo Morales”, cujo subtítulo (“Quem se levanta com a Bolívia e Evo se levanta por todos os povos e para todos os tempos”) sintetiza o espírito da manifestação.

Campesinos laborais

Das diversas organizações internacionais que enviaram dirigentes à Bolívia cabe destacar o fórum indígena da América do Sul. Diferentemente do Brasil, na Bolívia os índios constituem a maioria da nação, são predominantemente os “campesinos laborais” que com certeza compõem a classe trabalhadora, fortemente explorada e oprimida pelos capitalistas e latifundiários locais, assim como pelas transnacionais e pelo imperialismo americano.
A questão indígena não pode ser entendida à margem das classes sociais ou em contraposição à chamada questão social. São coisas intimamente interligadas e, na medida em que a revolução democrática em curso na Bolívia proclama o objetivo socialista e se choca com os interesses das transnacionais, principalmente (mas não só) dos EUA, ela adquire um nítido caráter proletário.

Luta nacional e de classes

O que presenciamos na Bolívia é um duro embate de classes que tem também um sentido nacional. A Bolívia como nação foi ameaçada seriamente pela convergência de interesses do imperialismo e da grande burguesia local, que querem esquartejar o país, ao passo que os legítimos interesses nacionais, a soberania e a integridade territorial, são defendidos pela classe trabalhadora, composta majoritariamente pelos indígenas.
Seria equivocado não compreender esta ligação ou colocar uma muralha da China entre a questão nacional e a questão social, separando artificialmente a luta nacional da luta de classes. Percebi na Bolívia, como representante da CTB, um povo altamente politizado, organizado e participante, protagonizando este momento de mudança do país, que me parece irreversível.

Racismo

 Evo Morales, que se projetou na vida política como líder sindicalista dos cocaleiros, é o primeiro índio a ser eleito presidente da Bolívia em 180 anos de história. Sua ascensão ao mais elevado cargo da República é emblemática da elevação de consciência da população indígena. Consagrado nas urnas por duas vezes (a última no referendo revogatório realizado em 12 de outubro, quando obteve 67% dos votos), o ex-sindicalista não esqueceu suas origens e está honrando os compromissos que assumiu com seu povo de promover profundas transformações sociais no país. O que está em curso é a refundação da Bolívia, cujo governo tem uma participação majoritária dos índios e uma presença marcante das mulheres.
O governo nacionalizou e submeteu ao controle do Estado a exploração dos recursos naturais (sobretudo gás e petróleo), o que possibilitou triplicar os recursos destinados à área social, avançar no combate ao analfabetismo (que, graças à ajuda de Cuba e Venezuela, deverá ser erradicado no prazo de um ano), iniciar a reforma agrária e prover os mais pobres de uma renda mínima.  Estagnada durante a longa noite neoliberal, a economia boliviana recuperou o fôlego com a nova política e o PIB passou a crescer a taxa superior a 4% desde a eleição de Morales, em 2005.
O sucesso político, econômico e social (contrariando as aves de mau augúrio do neoliberalismo, que previam a fuga do capital estrangeiro e a catástrofe econômica) despertou o despeito e o ódio das elites brancas endinheiradas, que fazem do racismo uma profissão de fé e agem como notórios fascistas.

Fascismo

Vários ministros da República boliviana relataram os trágicos acontecimentos dos últimos meses, patrocinados pelas elites racistas com o apoio descarado dos EUA com o objetivo de dividir o país e derrubar o governo de Evo Morales, mesmo depois que este obteve uma consagração histórica nas urnas no referendo de outubro.

Fizeram um pouco de tudo quanto é patifaria nas localidades (departamentos e províncias) governadas pela oposição - Santa Cruz de La Sierra, Camire, Sucre, Pando e Mineros. Ocuparam aeroporto, invadiram a rede de TV estatal e chegaram a promover um massacre que resultou na morte de cerca de 30 índios (em Pando, cujo governador foi detido e encarcerado).

O adjetivo “fascista” empregado pelos ministros de Morales para definir o comportamento da oposição não poderia ser mais preciso. Felizmente, a mobilização dos movimentos sociais e a posição firme da Unasul paralisaram a mão assassina da direita neoliberal e impediram a vitória da conspiração golpista, que sempre contou com ostensivo apoio de Tio Sam.
Revolução

Penso que o que está em curso na Bolívia pode ser definido como uma revolução democrática. Reforcei esta convicção no encontro com o presidente Evo Morales, que em seu discurso homenageou o veterano líder cubano Fidel Castro e reafirmou seu compromisso com a mudança social e a luta contra o neoliberalismo e o imperialismo.

A nova Constituição, que vai a referendo em janeiro apesar da oposição desesperada da direita neoliberal, já avança neste caminho, pois promulga a paz, impedindo a participação da Bolívia em guerras no exterior, defende as culturas indígenas, preservando 18 línguas nativas e assegurando que pelo menos duas serão ensinadas obrigatoriamente nas escolas - o espanhol mais uma língua indígena, consolida a nacionalização dos recursos naturais e a democratização e redistribuição da posse da terra (reforma agrária).

EUA isolados


 O encontro realizado em Santa Cruz criou um fórum permanente de solidariedade à Bolívia, do qual a CTB fará parte, e também aprovou um importante documento em apoio ao povo indígena e ao presidente Evo Morales. O texto enaltece o atual governo por promover a cultura da vida contra o racismo, o neocolonialismo, o autoritarismo e a cultura da morte; exige justiça para os irmãos e irmãs bolivianas que foram atingidos pelos ataques da direita fascista e racista; reconhece que está em curso a refundação da Bolívia pela nova Constituição e a consolidação de uma democracia plurinacional; identifica uma transgressão direta aos direitos humanos contra os indígenas e exige da Justiça a apuração rigorosa dos crimes cometidos recentemente e a punição dos culpados nos departamentos e municípios governados pela direita neoliberal.

É importante assinalar que o governo Morales também conta com significativo apoio de países europeus, que neste caso estão se comportando de forma autônoma e bem diferente dos EUA. O governo espanhol enviou um ministro ao ato de solidariedade ao presidente índio, que entregou 200 ambulâncias doadas pela Espanha ao país andino e prometeu uma relação de parceria com a Bolívia, sem ingerência na autonomia do povo e envolvimento nas conspirações subversivas da direita racista. É um claro sinal do isolamento do imperialismo estadunidense e da mudança do cenário político na América Latina.


Por Joílson Cardoso, secretário de Política Sindical e Relações Institucionais da CTB
   
0
0
0
s2sdefault

Quer saber o que acontece no movimento sindical e no mundo do trabalho?

Digite seu nome e e-mail para receber gratuitamente nosso informativo.