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Sex, Dez

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"Educa a criança no caminho em que deve andar; e até quando envelhecer não se desviará dele". (Provérbios 22.6)

Já faz algum tempo. Mas eu me lembro. Fui criada na igreja evangélica. Frequentei cultos, escola dominical, fiz parte do louvor, fazia acampamento para a criançada.

Mas, faz um tempo já que não vou mais à igreja. Foi por um incômodo que eu nunca soube ao certo definir. Um sentimento estranho que me afastou desse local.

Vendo a atual conjectura do país, começo a entender: aquele enjoo que eu sentia era muito provavelmente repulsa à hipocrisia.

Parte da igreja hoje escolhe mais uma vez salvar Barrabás, deixando Cristo e as ideias de Cristo morrerem (Marcos 15).

Parte da igreja hoje está sentada na roda dos escarnecedores (Salmo 1.1) Ora! Tem igreja que é em si a própria roda! Dia e noite pensando o mal, falando o mal, reproduzindo o mal, apoiando publicamente o mal.

Parte da igreja hoje se deixou seduzir pelo pai da mentira: "Vocês pertencem ao pai de vocês, o Diabo, e querem realizar o desejo dele. Ele foi homicida desde o princípio e não se apegou à verdade, pois não há verdade nele. Quando mente, fala a sua própria língua, pois é mentiroso e pai da mentira." (João 8.44). Atualização: O diabo é o pai das fake news!

Parte da igreja hoje trocou a Graça pelo dente por dente. O ladrão da cruz (Lucas 23) nas mãos dessa igreja não teria o mesmo lindo destino que o da Bíblia. Aqui é assim: ladrão da cruz bom, é ladrão da cruz morto! Direitos humanos para humanos direitos! Já pensou se Jesus fosse assim seletivo também o que seria da gente?

Parte da igreja continua ignorando a parábola do bom samaritano: ama o teu próximo como a ti mesmo. E quem é meu próximo? - perguntou o carinha que queria ir pro céu (Lucas 10). Quem é teu próximo? É o negro que você acha inferior, é a mulher que você subjulga, é o gay que você odeia, é o pobre que você despreza! Tem que amar essas pessoas! Amar o próximo! Amar não é tolerar. Amar não é "mas eu tenho amigos negros e gays". Isso não é amar! Se você ama mesmo, não bate palma para quem humilha e despreza essas ou quaisquer outras pessoas.

Eu sei que não é fácil, que a situação atual do Brasil está lastimável. Sei que a corrupção é algo complicado. Sei que não deveríamos ter que escolher entre o ruim e o menos pior. Mas a resposta para a corrupção é isso mesmo que estamos vendo? Esse é o único caminho? Um povo que crê em um Deus que opera milagres, que acredita no poder transformador da oração, um povo que viu cair maná do céu, que viu as muralhas de Jericó ruírem, que viu o mar se abrir: esse povo vai se entregar a uma solução enganosa de um falso profeta que propaga o ódio e a guerra? Perdemos nossa fé? Estaria a política acima de nossa fé? Estaria a economia acima da nossa humanidade?

Qual é o sentido de ir à igreja se não há mudança real naquilo que somos e pensamos? Se a Graça não nos alcança? Se o perdão não nos alcança? Se o amor não nos alcança? Qual o sentido?

Sem se permitir viver pela Graça, o que mantém cada um indo à igreja é a culpa. Um peso mesmo. Um incômodo irracional que faz a gente continuar indo, domingo após domingo, para um lugar que em nada nos muda, afinal, ao término do culto, nossas ações, palavras e pensamentos continuam manchados pelo ódio, pelo desamor. Quais são os frutos do Espírito? "Mas o fruto do Espírito é amor, alegria, paz, paciência, amabilidade, bondade, fidelidade" (Gálatas 5.22). Onde estão esses frutos, meu irmão, minha irmã? Será só uma musiquinha que me ensinaram quando era criança? É só um versículo que eu decorei para ganhar pontos com a tia da escola dominical? NÃO!

Convido os que se enchem de orgulho ao se proclamarem cristãos, mas escolheram estar do lado oposto daquilo que Cristo representa, a refletir: leiam o Evangelho com a razão e com o coração! Olhem para Jesus! Olhem as coisas que Ele fazia, as histórias que Ele contava! Leiam lá em Atos como funcionava a igreja primitiva!

Mas se isso não funcionar, se é só a culpa que funciona para você, fique com essa: de tanto bradar que sua bandeira nunca será vermelha, por favor, considere que, dependendo dos resultados das próximas eleições, o verde e amarelo vão virar vermelho sim: de sangue. E aí, de um jeito ou de outro, você não vai vencer. Você terá sim a bandeira vermelha contra a qual tanto luta: manchada de sangue. Sangue daquele próximo que a gente devia ter amado. Como vai ficar sua consciência? Será que você vai herdar o Reino dos Céus assim? Você vai pagar pra ver? Ou acha que o inferno está reservado só para os gays e os comunistas?

Peço desculpas pelos momentos de apontar o dedo e pelo tom exaltado ao longo desse desabafo. Eu sei que parece que estou me colocando acima de vocês, mas sei bem que não estou acima de ninguém. Assumo minha falibilidade, imperfeição e abraço minhas limitações diariamente. Sei que haverá pessoas que ignorarão tudo que escrevi. Sei que deve haver um monte de contra-argumentos e outros versículos (provavelmente do Velho Testamento) pra me deixar no chão: não precisam perder tempo - eu já perdi. Por fim, sei que vou ofender alguns e, a esses, peço desculpas de coração. Minha intenção nunca foi essa... mas... é que eu não esqueço, sabe?

"... quando envelhecer não se desviará dele."

Sei que faz tempo que não vou à igreja. Sei que provavelmente nem me consideram mais uma irmã. Mas, eu não esqueço. Não esqueço do que aprendi na igreja. Não esqueço que Deus é amor. Jesus não virou homem, veio para Terra para que os que se dizem seus seguidores simplesmente ignorassem boa parte de seus ensinamentos pra sair atrás de ídolos humanos salvadores da pátria.  A gente pode ser melhor e maior que isso.

Minha oração sincera é que as coisas ainda possam mudar. E que a igreja que hoje apoia o ódio caia em si e se lembre daquilo que a gente jamais pode esquecer: "amemos uns aos outros, pois o amor procede de Deus. Aquele que ama é nascido de Deus e conhece a Deus. Quem não ama não conhece a Deus, porque Deus é amor." (1João 4.7-8).

O próximo acima de tudo.

O amor acima de todos.

Porque Deus é amor.

Ana Laura Nakazoni é evangélica, linguista e professora de Língua Portuguesa.


Os artigos publicados na seção “Opinião Classista” não refletem necessariamente a opinião da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB) e são de responsabilidade de cada autor.

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