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 A França recebeu 2019 em plena agitação pelo chamado movimento dos coletes amarelos, cuja amplitude e radicalização tomou o país de surpresa e chamou imediatamente a atenção internacional.

Ainda que todo o ano de 2018 esteve marcado por constantes protestos contra a política do presidente Emmanuel Macron, poucos podiam adivinhar que nas últimas semanas chegariam as jornadas mais intensas protagonizadas por uns atores inovadores na cena nacional. A partir de novembro, transportadores, motoristas profissionais e cidadãos começaram a sair às ruas para expressar seu repúdio à decisão governamental de aumentar o preço dos combustíveis, vestidos com coletes refletores amarelos e realizando ações como bloqueios de estradas, de depósitos de combustíveis e marchas, entre outras.
 

A resposta inicial das autoridades foi parecida a seu comportamento durante o ano com outros protestos: não escutar as reivindicações e usar as forças de segurança para tentar manter a ordem.

Mas os coletes amarelos, longe de desistir, reforçaram a mobilização e paulatinamente ampliaram suas reivindicações a novas frentes: o aumento de impostos em geral, a perda do poder aquisitivo como resultado da política governamental, e a reinstauração do Imposto sobre a Fortuna, que foi eliminado há meses por Macron.

Também começaram a exigir uma reforma da Constituição no sentido de uma democracia plena e que os cidadãos tenham a possibilidade de pedir e impulsionar a realização de referendos nacionais sobre temas relevantes.

Nesse contexto, o governo finalmente teve que ceder e anunciou em dezembro medidas como suspender o imposto do combustível e um aumento do salário mínimo, mas para então já era tarde demais devido à amplitude alcançada pelo movimento e a radicalidade de suas reivindicações.

Já no começo de 2019, no dia 6 de janeiro, viveu-se o oitavo sábado consecutivo de protestos em todo o país, e apesar das cenas de violência protagonizadas por alguns grupos isolados e pelas forças da ordem, a maioria das ações se desenvolveram de forma pacífica.

Neste sentido, as figuras mais representativas dos coletes amarelos denunciam que as autoridades e os meios de comunicação concentram sua atenção nesses fatos, com o objetivo de justificar a arremetida dos agentes e desvirtuar a essência das manifestações.

Enquanto o governo faz questão de afirmar que a mobilização começa a decair, a primeira jornada do ano buscou evidenciar justamente o contrário com o lema: 'Mostremos que o movimento não terminou'.

Reflexo de um país em crise 

Ao analisar os acontecimentos das últimas semanas, analistas e acadêmicos apontam que o movimento dos coletes amarelos é o reflexo de uma profunda crise nacional e da indignação cidadã com a política governamental.

De acordo com o professor universitário Jean Ortiz, o país 'está imerso em uma crise global horrível da qual nasceu um movimento social inédito, histórico, talvez sem precedentes desde a Frente Popular em 1936'.

Em um recente artigo, disse que 'haverá um antes e um depois' deste movimento, no qual grande parte da população expressa 'uma ira subterrânea que, por bem ou por mal, aguentavam há muito tempo'.

Por sua vez, o acadêmico Salim Lamrani considerou que os coletes amarelos, apoiados por 80% da opinião pública, 'simbolizam a insurreição cidadã dos esquecidos da República (...) que desejam uma repartição mais equitativa das riquezas nacionais'.

Os especialistas concordam em apontar vários aspectos que distinguem a os coletes amarelos do resto das manifestações tradicionais.

Neste sentido, destacam sua condição de movimento não articulado; separado de partidos, sindicatos ou outras organizações tradicionais; e protagonizado por cidadãos em sua maioria alheios à política e que no curso dos acontecimentos foram se radicalizando.

'O mais impactante são os aspectos quase insurreicionais desse inesperado levantamento de pobres - que são maioria em seu seio -, de pessoas até hoje alheias às lutas, que nunca tínhamos visto em nenhuma greve, em nenhuma marcha ou manifestação, e que muito rápido, no processo, se politizou', explicou Ortiz.

Agregou que os participantes aprenderam a se coordenar, se auto-organizar, a pressionar os meios de comunicação que têm sido agressivos e mentirosos, ao fazer ênfase 'unicamente na queima de carros, de lojas ricas, nos exageros de um punhado de bagunceiros infiltrados nas filas do movimento'.

'Os meios dão pretexto para o endurecimento de uma repressão que não faz mais que dar coragem aos que lutam', julgou o professor aposentado da universidade de Pau.

Segundo suas propostas, os 'coletes amarelos' têm raízes profundas: os mais de trinta anos de 'liberalismo', de golpes de grande magnitude contra os serviços públicos, o poder aquisitivo, a saúde, o ensino.

'Essa onda violenta de regreção social e seu fracasso rotundo (pago pelos trabalhadores), acarretou uma quantidade de sofrimentos sociais, de pobreza (quase dez milhões de pessoas, segundo os institutos de pesquisa, vivem abaixo do limite da pobreza)', indicou.

Agregou que isso deixou ruínas industriais de norte a sul da França, milhões de vidas comprometidas, 6,5 milhões de desempregados declarados, enormes fraturas e desigualdades sociais que atingem níveis sumamente preocupantes.

Nesse contexto, as reivindicações dos coletes amarelos apontam a uma maior justiça social e fiscal, enfatizou Salim Lamrani.

'Os cidadãos (...) exigem justiça social e fiscal, uma democracia mais participativa e o direito a viver com dignidade', argumentou.

Fonte: Prensa Latina

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